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Psicofonia: o que é, incorporação e psicofonia consciente

Psicofonia

Psicofonia é a forma de mediunidade em que, segundo a doutrina espírita, o espírito comunicante se expressa pela voz do médium, que fala sob a influência dele. Na terminologia de Allan Kardec, em “O Livro dos Médiuns” (1861), quem tem essa faculdade é o médium falante, e outras correntes, como a umbanda, usam o termo incorporação para um fenômeno de sentido próximo.

Este artigo explica o que é a psicofonia, como ela difere da incorporação, o que significa ser um médium consciente, semiconsciente ou inconsciente e como o fenômeno é tratado na casa espírita. Tudo aparece como prática de fé, descrita pelas próprias tradições, sem afirmar nem negar que o fenômeno seja real. E há um cuidado que vale desde já: desmaios, convulsões, perda de memória e “apagões” fora de um ambiente orientado são sinais para procurar atendimento de saúde, e isso não contradiz a sua fé.

Neste artigo:

O que é psicofonia

Na linguagem espírita, psicofonia é a comunicação de um espírito por meio da fala do médium. O médium empresta a voz, e as palavras são atribuídas a um espírito desencarnado, que pode ser um parente, um amigo, um mentor ou alguém que precisa de ajuda e de uma palavra de conforto.

É comum a pergunta “o médium fica sem controle?”. Na descrição espírita, não: o médium é entendido como um intermediário que mantém, em graus diferentes, a sua individualidade e a sua responsabilidade. Pode interromper a comunicação, e a doutrina insiste que o médium não deve ser tratado como objeto nem como espetáculo. A psicofonia deve acontecer em ambiente de estudo, prece e respeito, e não por curiosidade.

Se você quer o contexto geral antes de se aprofundar, o artigo O que é Mediunidade? Tipos, Sinais e Como Desenvolver com Segurança apresenta as formas de mediunidade e os cuidados básicos.

Origem da palavra e o médium falante de Kardec

A palavra psicofonia junta dois elementos de origem grega que remetem à ideia de “psique” (alma, mente) e de “fone” (voz, som), a mesma raiz de palavras como “telefone” e “fonética”. Em sentido literal, algo como “voz da alma” ou “voz do espírito”. O termo é de uso corrente no meio espírita brasileiro, e Kardec, no século XIX, falava em médiuns falantes.

Allan Kardec (1804 a 1869) é o codificador do espiritismo. “O Livro dos Espíritos” é de 1857, e “O Livro dos Médiuns”, de 1861, é a obra em que ele reúne o que a doutrina entende sobre as faculdades mediúnicas e sobre os cuidados da prática. Nela, os médiuns são agrupados em categorias, entre as quais estão os médiuns escreventes ou psicógrafos, os audientes, os videntes e os falantes, que são aqueles que transmitem a comunicação dos espíritos pela palavra.

Em seu conjunto, a obra insiste em três ideias que valem até hoje para a psicofonia: a comunicação precisa ser avaliada pelo bom senso e pelo conteúdo moral, o médium precisa de estudo e de equilíbrio, e a faculdade não deve ser explorada comercialmente.

Psicofonia e incorporação: os nomes por corrente

Psicofonia e incorporação são muitas vezes tratadas como sinônimos na conversa do dia a dia, mas cada tradição tem seu vocabulário e seu entendimento. O quadro abaixo resume como os termos aparecem, de forma geral. Dentro de cada casa, os nomes e os significados podem variar.

CorrenteComo costuma ser chamadoEm linhas gerais
EspiritismoPsicofonia, médium falanteO espírito comunica-se pela fala do médium, em reunião orientada, com estudo e sem ritual.
UmbandaIncorporação, “dar passagem”Guias e entidades (como caboclos, pretos-velhos e crianças) manifestam-se no corpo do médium, na gira, para o trabalho e o atendimento.
Candomblé e religiões afro-brasileirasTermos próprios, como o transeA manifestação do orixá ou da divindade segue os fundamentos de cada nação e de cada casa, que são ensinados no terreiro.
Outras correntes espiritualistasIncorporação, mediunidade de voz ou “canalização”Os nomes e o enquadramento variam bastante, de um grupo para outro.

Algumas diferenças aparecem com frequência. No espiritismo kardecista, a psicofonia acontece em geral em reuniões discretas, sem música, sem paramentos e sem ritual próprio, e a comunicação é depois avaliada pelo grupo. Na umbanda, a incorporação faz parte do culto, tem música, cantos e uma estrutura própria de trabalho, e o médium recebe entidades com identidade, nome e jeito de falar reconhecidos pela casa. No Candomblé, a manifestação da divindade tem fundamentos específicos que não devem ser confundidos com as outras formas.

Por respeito às religiões de matriz africana, este texto não detalha fundamentos nem práticas. O que cada casa faz, como faz e por quê é ensinado por quem a conduz, presencialmente. Na dúvida, visite uma casa aberta ao público, ouça com atenção e pergunte com educação.

Leia também: Mediunidade aflorada: sinais, o que fazer e quando buscar ajuda

Psicofonia consciente, semiconsciente e inconsciente

A literatura espírita costuma classificar a psicofonia de acordo com o grau de consciência do médium durante a comunicação. É uma forma de descrever a experiência relatada, e não um exame que se possa medir.

Psicofonia consciente

O médium sabe o que está falando enquanto fala. Relata que as ideias parecem vir de fora, como se fossem “sopradas” ou sentidas, e ele as traduz em palavras. Pode controlar o ritmo, escolher como dizer e interromper se achar necessário. É a forma que muitos autores espíritas consideram a mais comum.

Psicofonia semiconsciente

O médium percebe parte do que acontece, mas tem a sensação de que a fala não é inteiramente sua. Pode lembrar de trechos, de impressões ou da emoção, sem recordar tudo. É uma situação intermediária, em que a consciência está presente, só que menos nítida.

Psicofonia inconsciente

O médium diz não ter noção do que foi dito e, depois, quase não se lembra do que ocorreu. Na descrição espírita, é considerada menos frequente. Também é a que mais exige cuidado, por parte do dirigente e do próprio médium, porque quem a vive precisa de acompanhamento e de um ambiente seguro.

Há dois esclarecimentos importantes sobre essa classificação. O primeiro: ser consciente não significa estar inventando. Na visão espírita, o médium consciente continua sendo um intermediário, só que com mais percepção do que passa por ele. O segundo: a doutrina reconhece que o repertório, o vocabulário e as ideias do próprio médium influenciam o modo como a mensagem sai. Por isso o estudo e a vigilância pesam tanto, e por isso nenhuma comunicação é aceita só porque “veio” de alguém: ela é avaliada pelo conteúdo, pelo bom senso e pela moral.

Psicofonia na casa espírita

Na casa espírita, a psicofonia acontece na reunião mediúnica, que é diferente da palestra pública e do atendimento aberto. Em geral, a reunião é conduzida por um dirigente, tem um grupo estável de participantes que estudam e se preparam, começa e termina com prece, e é restrita, por respeito ao ambiente e às pessoas. Quem quer participar costuma passar primeiro por cursos de estudo e por um período de acompanhamento.

Alguns elementos aparecem com frequência nessas reuniões, embora cada casa tenha o seu modelo:

  • Estudo prévio. Os participantes estudam a doutrina, e o grupo costuma reservar um momento de leitura e de reflexão antes da parte mediúnica.
  • Prece. A abertura é feita com oração, em clima de serenidade e respeito.
  • O dirigente. Cabe a ele conduzir os trabalhos e garantir que tudo transcorra com ordem e equilíbrio.
  • O doutrinador ou esclarecedor. É a pessoa que dialoga com o espírito que se comunica, com palavras de acolhimento e de esclarecimento. Segundo a doutrina, muitas comunicações são de espíritos que sofrem e que precisam de ajuda para compreender a própria situação.
  • A avaliação. Depois, o grupo conversa sobre o que ocorreu e apoia os médiuns.
  • Sem cobrança. A orientação da doutrina é que a mediunidade não seja objeto de comércio, e as casas sérias não cobram pelo atendimento.

Também existem reuniões voltadas ao que a doutrina chama de desobsessão, em que o grupo procura auxiliar espíritos e pessoas envolvidos em situações de sofrimento. É um assunto próprio e delicado, e quem quiser entendê-lo melhor pode ler Espíritos obsessores: 3 dicas para evitar. A doutrina é clara em um ponto: o trabalho espiritual não substitui o tratamento médico, e as casas sérias orientam o acompanhamento de saúde em paralelo.

Cuidado: ninguém é obrigado a “incorporar” ou a falar em nome de um espírito, e ninguém deve ser pressionado, empurrado ou ridicularizado por não sentir nada. Desconfie de grupos que cobram para “desenvolver” a incorporação, que prometem resultado rápido, que fazem a pessoa passar vergonha em público ou que pedem segredo e afastamento da família. Para quem conversa com as entidades em um atendimento, vale o mesmo bom senso: não tome decisões de saúde, de dinheiro ou de relacionamento só pelo que lhe disseram.

Psicofonia é real?

A resposta honesta é que é uma prática de fé, estudada e discutida. Para quem a vive no espiritismo, na umbanda ou em outras religiões, o fenômeno é parte da experiência religiosa. Para pesquisadores de psicologia, antropologia e psiquiatria, o transe e a possessão em contexto religioso são fenômenos humanos observados em muitas culturas, que podem ser estudados com ferramentas das ciências, e com interpretações que seguem em debate. Em geral, a psiquiatria reconhece que um transe dentro de uma prática religiosa aceita pela cultura, sem sofrimento nem prejuízo à vida da pessoa, não é por si só uma doença.

Este artigo não afirma nem nega a realidade espiritual do fenômeno. O que ele sustenta é o que cabe nas duas visões: a prática exige respeito, estudo e ética, e a saúde da pessoa vem em primeiro lugar.

Quando procurar ajuda de saúde

Nem toda experiência de “perder o controle” é mediúnica, e nem todo mal-estar pede só uma resposta espiritual. Procure um médico, um psicólogo ou um psiquiatra se houver:

  • desmaios, quedas, tremores ou convulsões, principalmente se acontecerem fora de uma reunião, em casa, no trabalho ou na rua (podem ter causas neurológicas, como crises epilépticas, ou outras causas clínicas);
  • perda de memória do que aconteceu, “apagões” ou períodos em que a pessoa não sabe onde está;
  • vozes que mandam fazer algo, ofendem ou ameaçam, ou a sensação de ser controlado(a) por algo externo o tempo todo;
  • medo constante, pânico, insônia por vários dias, tristeza profunda ou mudança brusca de comportamento;
  • uso de álcool ou outras drogas junto de sensações estranhas;
  • pensamentos de se machucar ou de acabar com a própria vida.

Em crise, ligue para o CVV, no 188, a qualquer hora, de graça, ou chame o Samu, no 192. A unidade básica de saúde e o CAPS atendem quem está em sofrimento psíquico. Fazer o acompanhamento de saúde não impede ninguém de seguir estudando ou frequentando a casa de fé. Se a criança relata “ouvir” ou “falar com” alguém, a atitude é a de acolher, não rotular, e levar ao pediatra se houver medo, mudança de comportamento ou sofrimento.

Como a tradição orienta quem se interessa

Quem sente curiosidade ou se identifica com a descrição costuma ouvir conselhos parecidos nas casas sérias, e nenhum deles é uma técnica milagrosa:

  1. Cuidar do corpo e da mente. Dormir bem, comer bem e manter a rotina. Se houver qualquer sinal de alerta, avaliação de saúde primeiro.
  2. Estudar antes de praticar. Conhecer a doutrina ou a tradição da casa evita interpretações soltas e sustos.
  3. Procurar uma casa de confiança. Um lugar que acolhe, não cobra, explica e não pressiona. Visite, converse e observe antes de se comprometer.
  4. Ter paciência. Não existe prazo nem “método rápido” para desenvolver mediunidade, e ninguém pode garantir que você a tenha. Quem promete, está prometendo demais.
  5. Manter o equilíbrio moral. A doutrina enfatiza que o essencial é o que o médium faz de bom com a sua sensibilidade, e não os fenômenos em si.

Outros dons mediúnicos: Psicografia · Clarividência · Clariaudiência

Estudar a mediunidade com método
O curso Desenvolvimento Mediúnico apresenta o tema com estudo, equilíbrio e cuidado, para quem quer entender a própria sensibilidade sem pressa e sem medo. Ele complementa, e não substitui, o acompanhamento de saúde e a orientação de uma casa de confiança.

Perguntas frequentes

O que é psicofonia?

Na doutrina espírita, é a mediunidade em que o espírito comunicante se expressa pela voz do médium. Kardec chamava quem a tem de médium falante em “O Livro dos Médiuns” (1861). É uma prática de fé, descrita pela tradição, e não uma comprovação científica.

Psicofonia e incorporação são a mesma coisa?

São termos de sentido próximo, mas de tradições diferentes. Psicofonia é o nome espírita, ligado a reuniões orientadas e sem ritual. Incorporação é o nome usado na umbanda e em outras correntes, e envolve entidades, cantos e uma estrutura própria de trabalho. Os fundamentos de cada casa são ensinados dentro dela.

O que é psicofonia consciente e inconsciente?

É uma classificação da literatura espírita pelo grau de consciência do médium. No caso consciente, ele sabe o que fala; no semiconsciente, percebe só parte; no inconsciente, quase não se recorda depois. Ser consciente não significa estar inventando, segundo a doutrina.

O médium perde o controle quando faz psicofonia?

Na descrição espírita, não: o médium mantém, em graus diferentes, sua individualidade e responsabilidade, e pode interromper a comunicação. Se alguém perde a consciência, cai ou tem convulsões fora de uma reunião orientada, é preciso procurar atendimento médico, porque pode haver causa de saúde.

Como funciona a psicofonia na casa espírita?

Acontece na reunião mediúnica, conduzida por um dirigente, com estudo, prece, um doutrinador ou esclarecedor que dialoga com o espírito comunicante e uma avaliação ao final. Em geral é restrita a participantes preparados, e as casas sérias não cobram.

Psicofonia é real?

É uma prática de fé, estudada e discutida. Para quem a vive, faz parte da religião; para pesquisadores, é um fenômeno humano que pode ser estudado, com interpretações em debate. Este texto não afirma nem nega a realidade espiritual. Se houver sofrimento, desmaios ou convulsões, procure ajuda de saúde, e o CVV atende pelo 188.